Conheci uma rapariga, na altura tinhamos ambas 10 anos, que tinha tudo. Ou quase tudo, porque faltava-lhe o essencial. Quando eu ia a casa dela era o delírio. Ele era playstations, gameboys de diversas cores, jogos até dizer chega, bicicletas, skates, um computador, televisão, aparelhagem, bolas, jogos, telemóveis guardados em gavetas, etc. Livros, nem vê-los. Era sempre uma tarde bem passada, mais para mim que para ela. Parecia sempre entediada, resmungando com a mãe por não lhe ter comprado a mais recente versão do Nokia e que agora, não tinha nada para fazer. O que mais me fazia impressão é que a mãe usava um tom de desculpas, e prometia que no dia seguinte, sem falta, lho iria comprar. "Mas eu pedi há uma semana, já devias ter tido tempo" "Nunca fazes nada do que te peço" "Afinal não gostas assim tanto de mim" eram os argumentos da miúda. Eu acabava por me meter na conversa, e acho que por vezes disse coisas que não devia, mas conseguia sempre convencer a minha colega a ir jogar à bola lá para baixo. Hoje, com 15 anos e umas conversas com os meus pais vindas da época, consigo interpretar bem a situação. A culpa não é dela. A Rita, como lhe vou chamar, foi moldada, nenhuma criança nasce a saber o que está certo ou errado. É, simplesmente, uma princezinha sentada no seu trono e os pais, meros mordomos. A Rita foi habituada a ter sempre aquilo que queria e a não dar a valor a nada, por isso, está condenada. Condenada a ser uma adulta habituada a ter aquilo que quer sem o mínimo esforço. Mimada, egoísta, tende a ser arrogante com os outros quando as suas vontades não são satisfeitas. É claro que muitas das vezes estes pais são ausentes e recompensam os filhos com prendas, como se isso substituísse um acto de amor: um abraço, um beijo, uma conversa. Os pais gostam deles, amam-nos, não duvidemos de tal. Apenas os protegem de tal maneira que lhes tolham a possibilidade de autonomia e outras capacidades essenciais.São filhos mimados que estarão sempre alheios ao que se passa no mundo, à fome que crianças da sua idade sentem. Não vão conseguir enfrentar a vida na idade adulta, nem suportarão uma autoridade superior a eles. Ou mudam, ou morrem.
Quem os culpa?

12 comentários:
Vão estudar sempre com o intuito de tirar uma profissão que lhes dê muito dinheiro para poderem continuar com esse nivel de vida. Porém, como estão habituados a ter tudo quando estalam os dedos irão, muito provavelmente, fracassar na sua jornada. Irão viver debaixo das saias da mãe e da carteira do pai até arranjarem alguém que os sustente.
Ou então, mudam. Acontece, mas nem sempre...
(O pior são as suas atitudes até lá... arrogância, colegas, amigos-inimigos. Ui... bem longe desses meninos!)
(Gostei bastante do Blog!)
Zuza.
Pois é, e quando essas crianças crescem e se deparam com a dura realidade, é um choque!
Pois é, não dão o verdadeiro valor ao sentido da vida, apenas aos bens materiais! E isso que esses pais fazem, por muito que não saibam, não é para o bem dos seus filhos, mas para o mal. Porque um dia eles vão sofrer com isso e vão "arrepender-se" de serem assim...mas a culpa não é deles. É dos pais.
Beijinhos!
Dos teus textos, vou pegar num que me tocou especialmente, para expressar o meu comentário.
«O Dia a dia dela é ficar sentada na sala de estar a ver o tempo passar. Diz que o maior raio de sol que ali entra é quando a vamos visitar, conversar com ela nem que seja por pouco tempo»
É triste ficar sentada à espera que o tempo passe. Ser o maior raio de sol que aquece a vida de alguém, é reconfortante para quem o dá e quem o recebe. Mais importante ainda quando esse alguém deixou de lutar pelo seu tempo e perdido, fica aguardando o passar dos dias. O raio de sol é uma pausa bem vinda à monotonia. Uma interrupção no rosário dos dias sempre iguais. É o pouco que podemos fazer por um ente querido que se fechou num mundo próprio e limitado. Que desistiu de lutar e de viver. Essa é a vida da tia Antónia, assim como a de muitas outras pessoas, idosas como ela e mais novas.
Leonor, com os teus 15 anos reparaste e meditaste nisso, mostrando que sabes pensar, usas a sensibilidade para aprofundar aquilo que observas, desejas expressar e dar a conhecer as tuas opiniões e através delas, como tu és. Em suma: Revelas-te uma pessoa muito bonita.
Depois, encontrei na tua escrita muitas potencialidades. Gosto da forma como escreves. Elaboras e estruturas bem os textos, expões as ideias com clareza e simplicidade, dominas um bom vocabulário. Continua a trabalhar. A escrita amadurecerá contigo e ajudar-te-á a amadurecer.
Por último: gosto muito de ti Leonor.
Prima Juja
Pois, é um facto. Os mimados nunca o deixam de ser, nunca crescem e o mais triste de tudo é que nem reparam nisso, embora, como muito bem disseste não seja sempre culpa deles.
No meu ano de caloira conheci um caso flagrante: um rapaz que já andava na Universidade há anos, saltando de curso em curso sem se interessar por nenhum. Nem precisava... no fim do mês o pai lá lhe punha uma quantia muito "simpatica" no banco. Se acabava antes, no meio de farras e copos, era só ligar ao pápá.
E o moço contava isto tudo, assim mesmo sem aparente embarço, sabendo perfeitamente que muitos dos que o ouviam sobreviviam longe de casa com uma bolsa de estudos magra e quase nunca paga a tempo. Começei por sentir revolta, depois sentia só pena...
Gostei do blog;)
A culpa é desses pais que com falta de tempo pensam que recompensam os filhos com as prendas que dão, mas que não sabem que estão apenas a formar uns adultos extremamente inseguros e que vão ter muitas dificuldades em encaixar no Mundo, pois as coisas não lhe irão ser dadas da mesma forma, de mão beijada.
Parabêns pela refelxão muito bem escrita.
um beijo
.
Eu queria um aquário com um tubarão e os meus pais não mo deram. Nunca os perdoei. :-)
:-P, jaime.
Deste um exemplo arrepiante do que acontece quando os pais amam os filhos demasiado... e estou 100% de acordo: a culpa é só dos pais.
Por acaso já li este livro... E infelizmente conheço muitos ditadores! Não vou dizer que a culpa é deste ou daquele, mas em todas situações que conheço existe um denominador comum: pais que não definem regras, que satisfazem todos os caprichos e que não exigem nada. Tudo isto acaba por gerar jovens insatisfeitos, incapazes de lidar com as frustrações da vida e, acima de tudo, muito malcriados.
Mas existem outros factores que contribuem para esta situação...
Querida Leonor:
Não vou comentar o que está escrito em "Filhos mimados". Vou sim dizer-te da alegria que estou a sentir por ti, pelos teus pais e ainda por mim própria, que da tua Família me sinto parte. Posso agora dizer-te, com a verdade de que se reveste a minha relação com os que amo, que acabei de sentir que não és de todo normal. Não o és por seres Superior. A tua maneira de estar e de sentir a vida torna-te o que és - inteligente e muito lúcida. Estas duas características são necessárias e suficientes para tornar infeliz qualquer ser pensante. Mas nota, também são a base para que quem as possui, consiga atingir a homeostase e a felicidade a que todos aspiram. Bem sei que o caminho é longo e penoso, mas, tal como na "Flauta Mágica", o re-encontro de Pamina com Tamino acontece. Falo neste re-encontro à maneira de alegoria, bem se vê. A ti digo apenas: sê forte, sê tu própria, vai em frente. Se te conseguir ajudar no que quer que seja já me sinto feliz.
Parabéns minha querida Leonor. Gosto muito de ti. "Be yourself!"
Muitos beijinhos.
Se calhar eles próprios foram criados sem desconhecerem a palavra "não" que parecendo que não faz maravilhas na educação de uma criança!
Também conheci assim uma miúda, mais ou menos com 8, 9 anos, ela era minha vizinha na altura, ela tinha TUDO, TUDO, TUDO, eu passava a vida em casa dela e raramente via os pais dela (na altura não percebia porquê, mas agora percebo que eram ausentes), só conhecia a empregada, passava grandes tardes em casa dela porque todos os dias tinha um brinquedo novo, sempre coisas que eu não tinha. entretanto mudei de casa e só voltei a vê-la uns anos mais tarde, tornou-se numa miuda irritante, com a mania que é superior..
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