domingo, 4 de maio de 2008

A perfeição

Já antes me tinha sido recomendado, por várias pessoas, este conto. A Perfeição do Eça de Queirós. Passou muito tempo até que eu me lembrasse de o espreitar, e foi hoje, no âmbito de umas arrumações que fazia à minha estante, que encontrei o livro de contos do Eça. Deixei as limpezas pendentes e, sentada no chão, comecei a minha leitura. Na verdade, não esperei gostar tanto. Os ensinamentos tirados daquele conto tão simples, superaram as minhas expectativas.
O conto trata de Ulisses (quem não conhece a sua história?) que vive angustiado numa ilha, longe dos seus, com uma Deusa que cuida, ama e o alimenta embora Ulisses não nutra qualquer tipo de desejo por ela. Oito anos depois, Mercúrio, o mensageiro dos Deuses, vai à ilha isolada e informa que Calipso, a Deusa, tem de libertar Ulisses. Calipso não se conforma, mas acaba por aceitar. Então surge a oportunidade de Ulisses voltar para a sua terra, rever o seu povo, mulher e filho. A Deusa não entende como Ulisses pode recusar tanta paz, doçura, abundância e beleza eterna que perduravam na sua ilha e voltar para uma ilha de mortais, onde existe guerra, trabalho, sofrimento, mortalidade e, sobretudo, imperfeição.
A angústia da vida de Ulisses na ilha deriva da obrigação a adaptar-se a algo perfeito, algo fora da sua essência, algo fora da essência do Homem. A perfeição, para ele, é um defeito, pois não há uma relação de complementaridade possível entre ele e a Deusa, embora esta não se pareça importar. Ulisses garante à Deusa que o irreparável e supremo mal está na perfeição dela e que ele, Ulisses, um mero mortal, partirá feliz numa viagem atormentada pelo oceano, pela "delícia das coisas imperfeitas que o esperavam"!

O conto é muito sensato, mostra a relação do Homem com o Perfeito e dos tormentos por que passa neste tipo de relações. O esforço e trabalho para elevar algo ao quase perfeito é que se torna importante, caso contrário, a vida tem um brilho que ofusca e cega qualquer um...
Resumindo e concluindo, quem é que suporta pessoas perfeitas...? Já as politicamente correctas me irritam...;)

11 comentários:

liliana_lourenço disse...

Olá mleonor! :)

Pelo que contas do livro, o mesmo parece ser bem interessante, mas deixa-me dizer-te que a descrição que fazes do mesmo, é que dá vontade de o ler.

Escreves/expressas-te tão bem.. Já to devem ter dito inúmeras vezes, mas como não me lembro de alguma vez o ter dito a ti, mas também se o disse, nunca é demais repetir, então aqui fica: Escreves incrivelmente bem!

Espero que não interpretes mal o que vou dizer em seguida, mas muitas vezes esqueço-me que o que estou a ler, vem de uma jovem de 15 anos... muito bom. Continua assim. :)

Vou passando por aqui e vou-te adicionar aos meus links.

Beijinhos e boas leituras! :)

**

Maria Leonor disse...

Obrigada Liliana...É muito bom, muito bom mesmo, ler coisas do género que me elogiam e incentivam a continuar =)

Obrigada, mesmo!*

(Não deixes de ler o conto, que vale a pena :P)

Beijinho!

liliana_lourenço disse...

:) Não tens nada que agradecer.
O que é verdade é para ser dito, sem vergonhas ou receios.

E se essas verdades fizerem com que ganhes ainda mais incentivo, então melhor ainda. :)

E sim, até fiquei curiosa relativamente ao conto. Parece ser bem interessante e foca certos aspectos que nos fazem pensar..

Obrigada pela dica! :)

Beijinhos e até loguito! :)

**

Anónimo disse...

Olá, queria dar-te os parabéns pela forma como te exprimes através da escrita. Para além de escreveres muito bem (e isso já não é novidade para ti, pois vejo que já várias pessoas to disseram…), são admiráveis as tuas capacidades de análise e de síntese. No caso deste conto, nada fácil, por sinal, tu conseguiste em poucas palavras resumir a história e dar ênfase ao essencial! Parabéns!
Quanto à tua opinião, também estou de acordo contigo, é o esforço para sermos melhores em cada dia que passa que dignifica a nossa vida, mas felizmente que a perfeição não está ao nosso alcance…
m.

Andreia disse...

Pois é, a perfeição é um defeito! ;)

Vida de Praia disse...

As politicamente correctas também me tiram do sério, confesso ;-)
Talvez o Ulisses também tivesse saudades dos seus e daí não se ter adaptado à ilha - apesar de perfeita em muitos aspectos, não é perfeita para ele porque não está perto de quem ama...

Unknown disse...

Tens um desafio no meu blog ;)

beijinhos*

Maria Leonor disse...

Vida de Praia:

Eu também pensava assim até ler o resto do conto.

A Deusa, a uma dada altura, chegou a essa falsa conclusão e perguntou-lhe:
"Se em Ítaca não te esperasse a esposa tecendo e destecendo a teia, e o filho ansioso que alonga os olhos para o mar, deixarias tu, oh homem prudente, esta doçura, esta paz, esta abundância e beleza imortal?"

Ao que ele responde:
- Oh deusa, não te escandalizes! Mas ainda que não existisse, para me levar, nem filho, nem esposa, nem reino, eu afrontaria alegremente os mares e a ira dos deuses! Porque, na verdade, oh deusa muito ilustre, o meu coração saciado já não suporta esta paz, esta doçura e esta beleza imortal."

e dá vários exemplos:
"em oito anos nunca vi a folhagem destas árvores amarelecer e cair, nunca encontrei um charco; um tronco apodrecido; a carcaça de um bicho morto e coberto de moscas zumbidoras; Oh deusa, há oito anos, oito anos terríveis, estou privado de ver o trabalho, o esforço, a luta e o sofrimento..."

Terás de ler, ele dá vários exemplos e eu já transcrevi muitos :)
Quem quiser ler o conto...http://www.nallaworks.com/literatura/texto.php?texto=482

*

m.

Obrigada, apesar dos pesares, adorei :) you know what i mean

Vida de Praia disse...

Obrigada pela referência e pelo aprofundamento. Vou ter de ler :-)

Anónimo disse...

parabens pelo teu cantito..
muito teu...

Parabens


Bjinho

A Rainha disse...

Olá!

Gosto muito da tua forma de escrever e de encarar a vida! Parabéns!

COntinua assim!

Bjs